sexta-feira, 25 de junho de 2010

Federación de Fútbol de Chile

No aspecto cronológico, a seleção do Chile sempre foi vista como uma das mais tradicionais da América do Sul. Mesmo que sequer tenha conquistado títulos, uma história que começou há mais de um século nunca é desprezível. Todavia, de tempos em tempos, a equipe andina mergulha em duras entressafras, que a deixam obscura por muito tempo, no cenário internacional.
E, após esses tempos de vacas magras, também é tradicional que apareçam gerações com bons jogadores, tendo alguns símbolos entre eles. E tais gerações reerguerão o nome chileno, levando-o a boas participações em Copas Américas, ou até mesmo conseguindo classificações para Copas do Mundo. Foi assim que a história da seleção seguiu. E é assim que ela continua sendo, com mais um episódio do tipo, na classificação para a Copa de 2010.
Solidez desde o início
Em 19 de junho de 1895, na cidade portuária de Valparaíso, nascia a Federación de Fútbol de Chile, tendo David Scott como seu primeiro presidente. E, já aí, começa a tradição continental: a federação chilena é a segunda mais antiga da América do Sul, perdendo somente para a da Argentina, fundada dois anos antes.
Todavia, o primeiro jogo da história da seleção viria somente dali a quinze anos. Mais precisamente, um amistoso, contra a própria Argentina, em Buenos Aires, a 27 de maio de 1910, com vitória da Albiceleste, por 3 a 1. E os laços entre os dois países, mais Brasil e Uruguai, se estreitaram mais, até que, em 9 de julho de 1916, as quatro federações fundaram a Conmebol.
No mesmo ano, foi disputado o primeiro Campeonato Sul-Americano - hoje, a Copa América. E o Chile ficou na quarta posição, que também ocuparia nas três edições seguintes do torneio, até 1920, quando foi o país-sede. Mas o melhor resultado viria em 1926: novamente como sede, não só a equipe foi ao terceiro lugar no Sul-Americano, como teve o artilheiro da competição, David Arellano, com sete gols.
Porém, Arellano morreu em 1927, vítima de uma peritonite. E foi sem ele que a equipe chegou para disputar a primeira Copa do Mundo, em 1930. Mesmo assim, haveria outro dos primeiros bons atacantes da história chilena, Guillermo Subiabre. E ele fez seu papel: com quatro gols, dividiu o terceiro lugar na artilharia com o norte-americano Bert Patenaude. Todavia, mesmo com o 3 a 0 sobre o México e o 1 a 0 sobre a França, a equipe teria de decidir a vaga nas semifinais com a Argentina. Foi derrotada por 3 a 1. E ficou fora da Copa. Começava a primeira entressafra.
Alívio, só em casa
O Chile levantaria de sua hibernação apenas na década seguinte. Não tão coincidentemente, o início da reação viria com dois Sul-Americanos disputados em casa: em 1941 e 1945, a equipe chegaria ao terceiro lugar. Àquela altura, já havia surgido a geração que faria o Chile reaparecer. Com o goleiro Sergio Livingstone e o atacante Fernando Riera (que ainda voltará a aparecer nesta história), a equipe alcançaria a classificação para a Copa de 1950. Só venceria os Estados Unidos - e isso, já eliminada, após perder para Espanha e Inglaterra.
Mas os jogadores surgidos não deixaram a peteca cair. Logo depois da Copa, surgiria Enrique Hormazábal, outro grande atacante que La Roja teria. Mas seria no meio daquela década de 1950, mais precisamente em 1955, que surgiria um dos integrantes obrigatórios em qualquer lista que se faça dos maiores jogadores chilenos na história: Leonel Sánchez, "El Grán Leonel".
Já seria com Sánchez que a equipe, mais uma vez, faria grande campanha num Sul-Americano. Sediando novamente o torneio, em 1955, o Chile alcançaria o vice-campeonato continental - colocação repetida em 1956, numa edição extraordinária do Sul-Americano, sem premiações, mas reconhecida pela Conmebol.
No fim dos anos 1950, a equipe voltaria a ser mais discreta. Melhor dizendo, cairia novamente em fases ruins. Tanto que ficaria de fora da Copa de 1958 - e, em 17 de setembro de 1959, sofreria a pior derrota de sua história, com o Brasil goleando por 7 a 0, no Maracanã, pela Taça Bernardo O'Higgins, troféu disputado em partidas entre as duas seleções.
Vencedores, mesmo em terceiro lugar
A grande esperança, para o desenvolvimento do futebol chileno, ficava em 1962, quando o país sediaria a Copa do Mundo. E não faltaram percalços para desanimar a nação, como o terremoto ocorrido em 1960, ou a morte de Carlos Dittborn, principal homem do Comitê Organizador, a apenas algumas semanas do início da Copa.
Mas o time de futebol não se deixou abater. Treinado por Fernando Riera (lembra dele, jogando na Copa de 1950?), a equipe tinha, sim, voluntariedade, além de contar com a força da torcida. Mas o Chile também contava com alguns jogadores que fizeram história. Leonel Sanchez já tinha uma boa promessa a candidatar-se como seu sucessor, em Alberto Fouilloux. E ainda havia o goleiro Escuti, os meio-campistas Eladio Rojas e Jorge Toro... enfim, os donos da casa tinham qualidade.
Qualidade que ficou eclipsada pela violência e pelo espírito vingativo, na famosa "Batalha de Santiago", quando os chilenos se envolveram em várias confusões ao longo do jogo, contra a Itália - algo motivado por supostas reportagens preconceituosas de diários italianos, antes do Mundial. Mas, no final, Jaime Ramírez e Toro conseguiram sobressair-se em meio à tensão, e fizeram os gols da vitória por 2 a 0.
Nas quartas de final, outra surpresa: a equipe foi mais animada do que a União Soviética, mostrando brio, e saiu na frente, com gol de Leonel Sanchez, logo aos 11 minutos do primeiro tempo. Chislenko empatou aos 26, mas os chilenos não se abateram. E, três minutos depois, Rojas marcou o gol que recolocou os chilenos na frente - e que seria o da vitória.
Era hora de enfrentar o Brasil, nas semifinais. Ficou famosa, então, a seguinte frase: "Comemos o macarrão italiano, tomamos a vodca russa, e, agora, tomaremos o café brasileiro." Não foi suficiente: e, mesmo que a equipe tenha vendido caro a derrota, caiu para os futuros bicampeões, por 4 a 2.
Mas o espírito com que aquela campanha em casa foi encerrado não foi de tristeza. A equipe decidiu o terceiro lugar contra a Alemanha. E venceu, por 1 a 0. Pode não ter sido possível "fazer tudo", como previa a frase de Carlos Dittborn que motivou o país, na organização da Copa ("Porque nada temos, queremos fazer tudo"). Mas, sem dúvida, poucas participações em uma Copa do Mundo foram mais honrosas.
Surgem os dois maiores
Com a geração de 1962 já nos estertores, repetir desempenho tão satisfatório no Mundial de 1966 seria muito difícil. Mas, se Leonel Sanchez já se preparava para o adeus, surgia, no Santiago Wanderers, um zagueiro de precocidade tão grande quanto o seu talento. Seu nome: Elias Ricardo Figueroa Brander. Que já faria parte do elenco que disputaria a Copa na Inglaterra, mesmo tendo apenas 20 anos. A equipe voltaria a ser coadjuvante - só conseguiria um ponto, sendo a última colocada do grupo 4 -, mas começava a ver ali, talvez, o maior jogador a já ter vestido a camisa vermelha.
Em torno de Figueroa, começou a surgir outra geração, que minoraria o perigo de uma entressafra. E o time já mostrou seu talento em 1967, ao terminar com a terceira posição no Sul-Americano. Mas ela pouco se desenvolveria, até 1969. Já era tarde para as Eliminatórias da Copa, mas, mesmo com a eliminação, começaria ali a carreira de outro lendário chileno: Carlos Caszely, "El Chino".
Agora com dois pilares - Figueroa na defesa, Caszely no ataque -, a equipe viria para as Eliminatórias rumo ao Mundial de 1974. E, no célebre incidente com a União Soviética, que recusou-se a vir a Santiago, já sofrendo com a ditadura de Augusto Pinochet, La Roja mal precisou jogar para assegurar a classificação a mais um Mundial. Entretanto, também teve campanha anônima: sem fazer muita frente às duas Alemanhas, foi eliminado ainda na fase de grupos.
Entressafra e vexame
Aos poucos, o Chile foi vendo que não reporia tão facilmente a geração de Figueroa e Caszely. Mas ela ainda rendeu um grande fruto: o vice-campeonato, na (agora) Copa América de 1979. Porém, o que se viu na Copa de 1982 foi uma equipe envelhecida, que novamente ficou na lanterna, completamente eclipsada por Alemanha, Áustria e Argélia.
Por um tempo, a mudança prometia: afinal de contas, Caszely ainda ficou até 1985, havia outro bom atacante em Juan Carlos Letelier, e Roberto Rojas era um goleiro dos mais confiáveis. E um novo vice-campeonato de Copa América, em 1987 (incluindo os célebres 4 a 0 sobre o Brasil), ampliava essa esperança. Mas ela ruiu, pelo vexame em 1989: nas Eliminatórias para a Copa de 1990, o time disputou nervosamente a vaga com o Brasil.
Porém, a ânsia em retornar a um Mundial e manter o clima de guerra estourou numa atitude impensada: durante o jogo contra o Brasil, no Maracanã, com o Chile já perdendo por 1 a 0, Rojas decidiu simular que fora atingido por um sinalizador atirado no gramado. Já com uma lâmina em sua luva, cortou-se. No primeiro momento, o incidente parecia verídico. Mas descobriu-se a farsa, Rojas foi banido do futebol, o zagueiro Fernando Astengo e o técnico Orlando Aravena foram suspensos, e o Chile perdeu não só a vaga para 1990. Perdeu também o direito de participar das Eliminatórias para o Mundial seguinte, em 1994.
Mais duas lendas surgem. E a história recomeça
Porém, foi durante aquela fase de baixa que começou a aparecer mais um integrante para o panteão das lendas a terem defendido "La Roja". Todavia, Iván "Bam-Bam" Zamorano tinha mais oportunidade de aparecer nos clubes que defendia, como o Real Madrid e, depois, a Internazionale. A seleção continuava esperando a suspensão da Fifa passar.
Passou. E, em 1994, começou a aparecer o parceiro perfeito para Zamorano: Marcelo Salas. Novamente, apareciam jogadores que serviriam de alicerces para o surgimento de uma nova era para o Chile. Com coadjuvantes que mantinham um bom nível, também, como o meio-campista José Luis Sierra. As Eliminatórias para a Copa de 1998 seriam a prova de fogo para comprovar que o time já estava no ponto. Estava. Após 16 anos, a seleção voltava a estar em uma Copa.
Na França, a impressão era de que a equipe de Nelson Acosta teria apenas a sua dupla de ataque, uma das mais badaladas do futebol mundial. Mas Sierra manteve-se como um bom coadjuvante, e a voluntariedade da equipe bastou para jogos duríssimos, contra Itália, Áustria e Camarões, no grupo B. E, com três empates, a equipe conseguiu a classificação às oitavas de final. Não resistiu ao Brasil, e foi eliminada com 4 a 1, em Paris. Mas a honra estava restabelecida.
Nova queda. E nova esperança
Porém, aos poucos, Salas e Zamorano foram envelhecendo. Ainda que, em oportunidades distintas, conseguissem afirmar e reafirmar seus papeis fundamentais para a seleção (como nos Jogos Olímpicos de 2000, quando Zamorano foi o líder da jovem equipe que conseguiu o bronze, em Sydney), ambos já não podiam mais disfarçar o efeito do tempo.
E nem podiam disfarçar as influências de uma crescente desorganização, que vitimava cada vez mais o futebol do país. A ponto de a equipe ter feito campanha próxima do ridículo nas Eliminatórias da Copa de 2002, ficando na última colocação. Zamorano se aposentou, Nelson Acosta ia e vinha no comando do time, e nada melhorava.
Até a culminância em 2007, com uma eliminação melancólica na Copa América: sofrendo goleada para o Brasil, e ainda testemunhando problemas internos de disciplina entre os jogadores. Paralelamente, porém, a equipe sub-20 conseguia um ótimo terceiro lugar, no Mundial da categoria. Marcelo Bielsa chegou, usou a garotada, e o Chile chegou a mais uma Copa. Quem sabe, não seja o começo de mais uma ressurreição, tão comum na história da seleção.

Fonte
http://www.trivela.com/Conteudo.aspx?secao=54&id=21426

Site
http://www.anfp.cl/